Por muito tempo, quando alguém me perguntava como eu estava, eu dizia “bem”.
Não era mentira total. Não era bem também. Era a resposta automática que aprendi a dar porque era a resposta mais segura. A que não gerava pergunta de acompanhamento. A que encerrava o assunto antes que o assunto ficasse complicado.
Eu tinha ficado muito bom em fingir que estava bem. Tão bom que, em certos momentos, eu mesmo acreditava.
O problema do fingimento é que ele tem custo. E o custo vai sendo cobrado de formas que você não associa imediatamente ao fingimento. Aparece como irritação excessiva por coisas pequenas. Como insônia. Como essa sensação de que você está sempre correndo mas nunca chegando a lugar nenhum. Como distância nas relações, aquela frieza que você não sabe de onde veio mas que foi crescendo.
Foi só quando parei de fingir, da forma mais desajeitada possível, que entendi o tamanho do que estava carregando.
A saúde mental dos homens tem um problema de linguagem
Existe uma razão pela qual homens chegam tarde nos serviços de saúde, sejam eles físicos ou mentais. Não é só resistência. É que, muitas vezes, o homem genuinamente não sabe o que está acontecendo com ele.
Não é exagero. É que o vocabulário emocional masculino é pequeno. Foi reduzido ao longo de anos de aprendizado de que sentimentos não são coisa que homem nomeia. Resultado: você sente, mas não sabe o nome do que está sentindo. Não sabe dizer “estou com ansiedade”. Não sabe dizer “estou sobrecarregado”. Não sabe dizer “preciso de ajuda”.
Sabe dizer “tô cansado”. Sabe dizer “tá tenso”. Sabe ficar em silêncio.
E o silêncio vai acumulando.
O Ministério da Saúde lançou em março de 2026 a primeira Pesquisa Nacional de Saúde Mental, e os dados sobre homens confirmam o que muita gente já sabia por experiência: os homens procuram menos, chegam mais tarde, e quando chegam, frequentemente chegam em crise. Não em processo. Em emergência.
Não é porque não sofrem. É porque aprenderam a não nomear o sofrimento antes que ele vire emergência.
Eu também fingia que estava bem
Em 2022, estava num período que eu chamaria, com muito eufemismo, de difícil. Desempregado, com relacionamentos que tinham quebrado do mesmo jeito de sempre, com uma sensação crescente de que havia algo errado que eu não conseguia localizar.
Mas quando alguém perguntava, eu dizia bem.
Não era coragem. Era o padrão. Era o que eu sabia fazer.
Comecei a escrever o que virou o livro Os Homens Não Conhecem o Amor nesse estado. Não como terapia planejada, não com essa intenção. Comecei porque precisava fazer alguma coisa com o que estava acumulado, e escrever era a única forma que eu tinha de organizar o que não conseguia dizer.
Criei um personagem fictício, Pedro Pontes, para poder escrever sobre coisas que eu não conseguia admitir em primeira pessoa. E o que aconteceu foi que escrever sobre ele foi o processo mais próximo de falar sobre mim mesmo que eu tinha tido em muito tempo.
Pedro Pontes finge que está bem durante quase todo o livro. Ele funciona. Ele cumpre o que precisa cumprir. Mas por baixo disso existe um acúmulo que vai pressionando. E o livro é, em grande medida, sobre o que acontece quando esse acúmulo finalmente encontra uma saída.
O que a gente perde fingindo
Perdi coisas reais fingindo que estava bem.
Perdi a chance de ter conversas que precisavam acontecer em relacionamentos que importavam. Porque quando alguém tentava chegar mais perto, eu recuava. Não conscientemente. Era automático. O “tô bem” era uma porta fechada, e as pessoas respeitavam a porta fechada.
Perdi tempo. Anos tentando resolver por fora o que era um problema de dentro. Buscando em conquistas externas, em resultados, em movimento constante, um alívio que essas coisas nunca davam por mais de algumas horas.
Perdi contato comigo mesmo. Fui ficando cada vez menos capaz de distinguir o que eu queria de verdade do que eu achava que deveria querer.
E perdi, no período mais pesado, a capacidade de perceber que havia saída. Porque quando você está dentro do fingimento há tempo suficiente, ele deixa de parecer fingimento. Parece realidade. Parece que é assim que as coisas são.
O que começa quando você para de fingir
Não vou romantizar. Parar de fingir não é uma virada de chave. É um processo lento, desconfortável, cheio de recaídas.
O que começa, quando você para, é a possibilidade de nomear o que está acontecendo. E nomear muda alguma coisa. Não resolve, mas muda. Porque quando você consegue dizer “estou sobrecarregado” em vez de ficar com aquela tensão sem nome, você já tem algum ponto de partida.
Quando consegue dizer “preciso de ajuda” em vez de engolir, você abre uma porta que estava trancada.
Quando consegue admitir que não está bem, você para de gastar energia fingindo que está.
Essa energia que sobra pode ir para algum lugar útil.
Para mim, foi para escrever. Para outras pessoas vai para terapia, para conversas honestas com alguém de confiança, para finalmente marcar aquela consulta que estava adiando há meses.
O caminho é diferente para cada um. Mas começa no mesmo lugar: parar de dizer “tô bem” quando não está.
Escrever foi minha saída, não precisa ser a sua
Não estou dizendo que todo homem precisa escrever um livro. Estou dizendo que todo homem precisa de alguma saída. Alguma forma de colocar pra fora o que vai acumulando por dentro.
Pode ser conversa. Pode ser terapia. Pode ser escrever, correr, fazer qualquer coisa que crie um espaço onde você para de performar que está bem e começa a olhar de verdade para o que está acontecendo.
O Pedro Pontes encontra a dele da forma mais difícil, como a maioria de nós encontra. Depois de ter perdido coisas que não precisava ter perdido, depois de ter esperado tempo demais.
Mas encontra.
E se você está lendo isso e reconhece em alguma parte do que eu escrevi aqui o mesmo padrão que reconheço em mim, talvez valha a pena começar antes que o acúmulo vire emergência.
O livro Os Homens Não Conhecem o Amor foi escrito por alguém que também ficou muito tempo fingindo que estava bem. Não é manual, não é autoajuda, não tem resposta pronta. É a jornada de um personagem que para de fingir e descobre o que estava embaixo de tudo aquilo. Você encontra a edição autografada em livrodopipo.com.br e o físico e o ebook na Amazon.
Às vezes a primeira coisa é só parar de dizer que está bem quando não está.
Parece pouco. Não é.