Homem que fala e o machismo selvagem
Na última semana publiquei um vídeo nas minhas redes sociais refletindo sobre uma fala do Neymar Jr. depois de um jogo do Santos. Ao ser questionado sobre um cartão amarelo que o tiraria da próxima partida, ele respondeu que era difícil falar com o árbitro porque parecia que ele “tava de chico”. A fala era uma referência a uma mulher menstruada. E, por isso, segundo ele, o árbitro não conversava nem deixava falar em campo.
Na minha reflexão, eu trouxe um ponto que, pra mim, é central. Nós, homens, temos o hábito de atacar o feminino o tempo todo. Mesmo quando não existe nenhuma mulher envolvida na situação. A gente solta uma expressão, faz uma piada, usa um termo machista quase no automático. E, na maioria das vezes, nem percebe o que está fazendo.
Isso não começa na vida adulta. Isso vem da criação. Do que eu costumo chamar de manual invisível do que é ser homem. Um conjunto de regras que ninguém entrega por escrito, mas que todo mundo ensina. Está nas falas dos adultos, nas brincadeiras, nas correções, nos incentivos. E não vem só de homens. Mulheres também reproduzem isso, muitas vezes sem perceber.

Quem nunca ouviu um tio falando para um menino ainda pequeno provar que é homem? Quem nunca viu alguém incentivando esse mesmo menino a agir de forma que ele nem entende direito, mas aprende que precisa fazer para ser aceito? É assim, pouco a pouco, que a gente cresce entendendo que ser homem é, antes de tudo, não ser mulher.
E aí vem o resto. A ideia de que o homem manda, de que o homem não pode demonstrar fraqueza, de que sensibilidade é sinal de inferioridade. Isso vai sendo reforçado dentro de casa, na escola, na rua. Vai sendo repetido até parecer natural. E quando a gente percebe, já está falando e agindo desse jeito sem nem pensar.
É por isso que situações como a fala do Neymar passam batidas para muita gente. Porque não parecem graves. Parecem só uma piada. Só que não são. Elas fazem parte de um padrão maior. Um padrão que normaliza o desrespeito e transforma o machismo em algo cotidiano, quase invisível.
Quando publiquei o vídeo com essa reflexão, recebi vários comentários no YouTube. “Para de mimimi”, “quanto choro”, “falta do que fazer”. Entre outros do mesmo nível. E o mais curioso é que não teve exceção. Todos os comentários vieram de homens. Jovens, adultos, mais velhos. Todos reagindo do mesmo jeito.
Isso mostra o quanto a gente está preso a um ciclo. Um comportamento que se repete de geração em geração. O que nossos pais aprenderam, a gente repete. O que nossos avós ensinaram, continua sendo reproduzido. Eu gosto de chamar isso de loop do macho. Um modo automático de pensar, falar e agir.
E toda vez que esse loop se repete, alguém paga o preço. E não somos nós. São as mulheres. São elas que lidam com esse comportamento no dia a dia. No trabalho, em casa, nos relacionamentos. São elas que recebem o impacto de uma cultura que insiste em colocá-las em um lugar menor.
O que mais me chama atenção é pensar no que esses mesmos homens fazem quando estão diante de uma mulher de verdade. Se o nível de agressividade já aparece em um comentário de vídeo, imagina na vida real. Falta empatia, falta consciência e, muitas vezes, falta até o básico de reflexão sobre o próprio comportamento.
E tem um ponto que, pra mim, é impossível ignorar. Esse machismo que a gente insiste em repetir atinge diretamente as pessoas que estão mais próximas da gente. A mulher que divide a vida com você, a sua mãe, suas irmãs, suas filhas, suas amigas. Não é algo distante. É algo que acontece dentro de casa.
Se ainda assim isso não parece grave, o problema vai além de educação ou falta de informação. É uma escolha de não enxergar. Porque hoje ninguém pode dizer que não sabe. O acesso existe. O debate existe. O que falta, muitas vezes, é vontade de rever o próprio comportamento.
Meu pai dizia que ser homem é assumir as responsabilidades pelos próprios atos. Eu cresci ouvindo isso e faz cada vez mais sentido pra mim. Só que assumir responsabilidade também passa por evoluir. Por reconhecer erro. Por parar de repetir o que a gente sabe que machuca.
Ser homem não pode ser sinônimo de repetir padrão. Tem que ser sinônimo de consciência. De mudança. De crescimento. Porque continuar do jeito que está não é normal. Nunca foi. E já passou da hora de parar.