Medo de ser abandonado: quando o homem aceita tudo para não perder o amor

Existe uma diferença que raramente se discute quando o assunto é relacionamento masculino.

De um lado, o homem que não quer se comprometer, que foge, que mantém distância. Esse aparece em muitos textos, em muitas discussões, tem nome e diagnóstico.

Do outro lado, um tipo menos visível: o homem que fica demais. Que aceita demais. Que, por medo de perder a pessoa, vai cedendo pedaço por pedaço daquilo que ele é, até que o que sobra mal parece ele mesmo.

Esse segundo homem raramente aparece nas conversas sobre masculinidade. E foi por ele que escrevi.

O que o medo de abandono faz por dentro

O medo de ser abandonado não se anuncia como medo. Ele se disfarça de amor.

Aparece como “eu faço isso porque me importo.” Como “eu aguento porque vale a pena.” Como “se eu reclamo, corro o risco de perder, então prefiro não reclamar.” Como a decisão, tomada dezenas de vezes por semana, de engolir o que incomoda para preservar o vínculo.

Parece generosidade. Parece maturidade. Parece que você está sendo o tipo de parceiro que sabe ceder.

Mas tem uma hora em que a conta chega. Quando você olha para onde está e percebe que já não sabe bem o que pensa de verdade, o que quer de verdade, onde estão seus limites de verdade. Porque foram ficando menores aos poucos, sendo ajustados para caber no que o outro aceitava.

Pedro Pontes, o personagem central de Os Homens Não Conhecem o Amor, vive isso em cada relacionamento que passa pela narrativa. Ele não é o homem que foge. É o homem que fica e paga o preço de ficar da forma errada.

Quando o excesso de entrega produz o resultado oposto

Tem uma lógica perversa no medo de abandono que eu precisei escrever para entender.

O homem que aceita tudo para não perder acha que está garantindo o relacionamento. Mas o que ele está fazendo, sem perceber, é corroendo a base dele.

Porque nenhuma relação saudável se sustenta sem dois lados com substância própria. Sem dois pontos de vista que às vezes tensionam. Sem dois conjuntos de limites que às vezes precisam ser negociados.

Quando um dos lados se apaga, o que sobra não é harmonia. É um desequilíbrio que vai crescendo. A pessoa que fica no lado de cima do desequilíbrio perde o respeito pelo outro, muitas vezes sem entender por quê. E a pessoa que se apagou vai acumulando ressentimento que não consegue nem nomear, porque como você resente alguém por receber o que você mesmo ofereceu?

Pedro Pontes é traído. É deixado. É tratado como fraco por pessoas que ele amou sem reservas. E o livro não coloca isso como sorte ruim. Coloca como consequência de um padrão. Um padrão que precisa ser visto antes de poder ser mudado.

Por que esse padrão não tem nome no homem

Se uma mulher descreve o que Pedro Pontes vive, existe linguagem para isso. Existe o conceito de apagamento, de codependência, de relacionamento que consome a identidade.

Quando o homem vive o mesmo, o vocabulário falha. Porque a narrativa dominante sobre homens em relacionamentos é a do homem que não entrega o suficiente, que não está presente, que não é vulnerável.

O homem que entrega demais, que é vulnerável demais, que fica quando deveria ter ido embora, não cabe bem em nenhum dos dois lados do debate. Não é o homem tóxico. Não é o homem que precisa se desconstruir. É um homem com um tipo diferente de problema: não a falta de emoção, mas o excesso sem direção.

Esse homem fica invisível. E invisibilidade é o que perpetua o padrão, porque o que não tem nome é muito mais difícil de reconhecer em si mesmo.

O que a leitura pode fazer que a experiência sozinha não faz

Quando você está dentro de um padrão, é quase impossível vê-lo. Porque ele parece normalidade. Parece a forma como as coisas são. Você não tem perspectiva externa.

A ficção cria essa perspectiva. Você não está dentro do Pedro Pontes do mesmo jeito que está dentro de você mesmo. Você consegue ver o que ele faz, entender a lógica interna das escolhas dele, e ao mesmo tempo observar o custo que essas escolhas têm.

E nessa distância entre observar o Pedro e se observar acontece algo que, para muitos leitores do livro, foi a primeira vez que conseguiram nomear o próprio padrão.

O livro está na Amazon em físico e ebook. A edição autografada, se você quiser que tenha dedicatória, está em livrodopipo.com.br.

O que não é mais possível depois de ver

Não vou dizer que ler o livro vai resolver o medo de abandono. Não vai. Isso é trabalho longo, às vezes com ajuda, sempre desconfortável.

O que pode acontecer é que você pare de confundir esse medo com amor. Que quando notar que está cedendo demais, cedendo mais uma vez, cedendo por medo e não por escolha, você consiga distinguir as duas coisas.

Essa distinção não elimina o medo. Mas ela te coloca na posição de fazer uma escolha que antes não existia, porque a diferença entre os dois não era visível.

É por isso que escrevi o Pedro Pontes. Não para dar resposta. Para dar vocabulário a quem estava dentro do mesmo silêncio que eu estive.

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