Dia do Livro: o que significa essa data para um escritor que ainda está começando

Ontem foi 23 de abril. Dia Mundial do Livro.

Passei essa data como escritor publicado pela primeira vez na vida. E foi uma experiência estranha, no sentido bom da palavra, esse tipo de estranhamento que acontece quando a realidade não combina ainda com o que você tinha imaginado que seria.

Não houve cerimônia. Não houve discurso. Acordei, abri o celular, vi as postagens sobre o Dia do Livro, e fiquei uns minutos pensando que eu havia escrito um. Que ele existe. Que tem ISBN, que está num site, que você pode pegar ele físico nas mãos ou baixar no aparelho que quiser.

Isso ainda me pega de surpresa às vezes.

Por que 23 de abril

A Unesco escolheu o 23 de abril em homenagem a três escritores que morreram nessa mesma data em 1616: Shakespeare, Cervantes e Garcilaso de la Vega. É uma coincidência histórica que virou símbolo, e símbolos têm utilidade mesmo quando são arbitrários. Eles criam o espaço para parar e pensar sobre o que importa.

O que importa, nessa data, é o livro como objeto de transformação. Não no sentido grandioso que a palavra transformação costuma carregar. No sentido literal: um livro transforma o que está dentro da cabeça de quem escreve em algo que pode entrar na cabeça de quem lê. Essa transmissão de experiência entre dois desconhecidos, mediada por papel e tinta ou por pixels numa tela, é uma das coisas mais estranhas e mais humanas que existem.

O que foi escrever Os Homens Não Conhecem o Amor

Comecei a escrever o livro em 2022, num período ruim. Desempregado, com relacionamentos que tinham quebrado de formas que eu não conseguia explicar completamente, com uma sensação de que havia algo errado que não tinha nome.

Escrever foi a forma que encontrei de tentar nomear. Criei o Pedro Pontes para poder falar sobre coisas que não conseguia dizer em primeira pessoa. E fui descobrindo, ao longo do processo, que escrever sobre ele era uma das formas mais honestas que eu tinha de entender a mim mesmo.

O livro saiu em janeiro de 2026, pela LC Books. Você pode pegar a edição autografada, com dedicatória se quiser, em livrodopipo.com.br. O físico e o ebook estão na Amazon.

E ontem, no Dia do Livro, ele completou três meses de vida.

O que três meses ensinaram

Aprendi que publicar um livro é só o começo de um processo, não o fim. Que o livro continua existindo depois que você o larga, continua encontrando leitores, continua gerando conversas que você não controlou e não previu.

Aprendi que algumas das mensagens mais importantes que recebi vieram de homens que nunca tinham falado sobre o que estavam sentindo e que, de alguma forma, encontraram no Pedro Pontes um espelho que os ajudou a começar. Isso não tem preço, e não é algo que eu sabia que ia acontecer quando estava escrevendo.

Aprendi que escrever um livro muda quem você é de formas sutis. Não porque você virou outra pessoa. Mas porque o processo de colocar uma experiência interna em linguagem pública cria uma clareza que não existia antes. Você passa a saber coisas sobre si mesmo que só se tornaram nítidas quando precisaram ser ditas.

Aprendi também que o livro não pertence mais a você depois que sai. Essa é uma das coisas mais difíceis de aceitar. Enquanto estava escrevendo, eu controlava tudo: o que Pedro Pontes sentia, o que dizia, o que aprendia ou deixava de aprender. Depois que o livro foi publicado, deixei de controlar o que as pessoas fazem com ele, como interpretam, o que levam. E algumas interpretações me surpreenderam. Algumas me fizeram repensar coisas que achava que já havia entendido sobre o que havia escrito.

Isso não é desconforto. É o sinal de que o livro está vivo.

O que o Dia do Livro revela sobre quem escreve

O Dia do Livro existe, em parte, para lembrar que por trás de cada livro existe um ser humano que passou por algo que achou que valia a pena contar.

Não estou falando dos grandes clássicos. Estou falando de todo livro, de qualquer tamanho, de qualquer tiragem, de qualquer gênero. Cada um deles foi escrito por alguém que, em algum momento, decidiu que o que estava dentro da cabeça dele precisava sair, precisava tomar forma, precisava ser colocado num lugar onde outra pessoa pudesse encontrar.

Essa decisão não é simples. Escrever é escolher exposição. É colocar o que você pensa, o que você sente, o que você viveu ou imaginou, num formato que outras pessoas vão julgar, comparar, criticar, às vezes ignorar. É uma vulnerabilidade pública que não tem como ser desfeita depois que o livro está no mundo.

Compreendi isso de forma mais plena ontem, no Dia do Livro, lendo as postagens de outros escritores sobre o que escreveram e por quê. Reconheci no que eles descreviam o mesmo movimento que eu havia feito: o de decidir que o risco de ser lido era menor do que o risco de não ter dito nada.

O que o Dia do Livro representa para mim agora

Antes de publicar, o Dia do Livro era uma data genérica. Uma daquelas que aparecem no calendário junto com sugestões de leitura e citações de escritores famosos.

Agora é diferente. Não porque sou um escritor famoso, longe disso. Mas porque agora eu sei, por experiência própria, o que está do outro lado de um livro. O que custou estar lá. O que motivou cada escolha de palavra, cada cena, cada momento em que o personagem precisou enfrentar algo que o autor preferia não encarar.

Todo livro que você já leu teve alguém do outro lado passando por isso.

Essa é a coisa que o Dia do Livro me faz pensar. Não nos grandes monumentos da literatura. Nos escritores, conhecidos e desconhecidos, que fizeram o trabalho de transformar experiência em linguagem e colocaram isso no mundo para que outros pudessem encontrar.

É um ato de generosidade e de coragem, ao mesmo tempo.

Ontem eu comemorei fazendo parte disso, finalmente.

Para quem está pensando em escrever um livro

Se você está escrevendo alguma coisa, ou pensando em escrever, o Dia do Livro é uma boa data para parar e perguntar: o que está me impedindo?

Quase sempre a resposta é uma versão do medo de não ser suficiente. De que o que você tem para dizer não vai interessar a ninguém. De que você não é o tipo de pessoa que escreve livros, porque esse tipo parece viver em outro lugar, com outra formação, com outra história.

Eu não era o tipo de pessoa que escreve livros até escrever um. Não havia nada na minha trajetória que garantisse que eu ia conseguir ou que o resultado ia ser bom o suficiente para existir no mundo. Comecei porque havia algo que precisava ser dito, e a unica forma de dizer era escrever.

Os Homens Não Conhecem o Amor existe por esse motivo. Não por talento literário extraordinário ou por uma carreira construída em torno da escrita. Por necessidade de nomear algo que não tinha nome, e pela aposta de que outras pessoas estavam carregando o mesmo peso em silêncio.

Se você quer escrever, escreva. O Dia do Livro é um bom dia para começar.

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