Sou um rapaz de Carapicuíba tentando aprender a ser mais humano. Esse é o meu lugar de fala. Não o especialista que chegou lá. Não quem resolveu tudo e agora ensina. Quem ainda está no caminho.
É desse lugar que nasce Todo Mundo Conhece um Homem Perigoso, meu segundo livro. Uma narrativa em primeira pessoa sobre o machismo que vivi, que pratiquei e que escolhi não ver. Sem autoabsolvição. Sem saída pela tangente.
O livro já está disponível. Você encontra em livrodopipo.com.br e na Amazon.
Por que eu precisava escrever esse livro
Tenho uma afilhada. Ela tem cinco anos. Esse não é um detalhe emocional para entrevistas. É o motivo real.
Quero que ela viva numa sociedade segura e longe de machismo e misoginia. Isso não vai acontecer por acaso. Vai acontecer quando os homens pararem de esperar que as mulheres resolvam um problema que os homens criaram. Por isso escrevi.
Também vi o que a machosfera faz com homens jovens. Ela oferece uma identidade fácil, baseada em dominação, e chama isso de força. Esses movimentos falam uma língua que os homens entendem. Por isso são perigosos. Por isso quis escrever uma narrativa de dentro. De um homem comum que foi formado pelos mesmos padrões. E que decidiu olhar para isso com honestidade.
Homens perigosos não aparecem do nada. Eles são formados. Eu fui formado assim. Esse livro conta como.
O que você vai encontrar em Todo Mundo Conhece um Homem Perigoso
Cenas reais. Situações que preferia não ter narrado. Momentos em que fui parte do problema.
A possessividade com a Juliana, que eu chamava de cuidado. O silêncio diante do Osvaldo, que eu chamava de prudência. A relação com a Rachel, onde a manipulação financeira velada passou por anos sem ser nomeada. Tudo isso está no livro. Contado sem saída pela tangente.
Fui jornalista antes de ser escritor. Tenho mais de uma década construindo narrativa. Essa experiência me deu precisão técnica. Só que o diferencial do livro não é técnico. É a disposição de me colocar como parte do problema. Esse gesto é raro em livros sobre machismo escritos por homens.
A leitora crítica que leu o livro antes do lançamento identificou o maior ativo do texto. Para ela, é a honestidade de um homem implicado na própria história. Um homem que reconhece erros, automatismos e silêncios. Que não sai pela tangente. Isso foi o que tentei fazer.
A confissão sem autoabsolvição
Existe uma diferença entre memória e confissão. Na memória, você escolhe o que conta. Na confissão, você conta as cenas em que foi parte do problema, não só as em que foi testemunha.
Todo homem que ler esse livro vai se reconhecer em pelo menos uma cena. Esse desconforto é intencional.
Não escrevi sobre homens distantes. Escrevi sobre mim. Sobre os pequenos atos que a gente comete no dia a dia sem notar. A piada que deixei passar. O silêncio na hora que devia falar. O controle que chamei de cuidado. Essas coisas parecem pequenas. É exatamente onde o machismo vive.
O livro também não é julgamento. Não sou quem chegou e agora aponta o dedo. Estou em processo. O livro é parte desse processo, não a conclusão dele.
O que esse livro não é
Não é um manual. Não tem passos para se tornar um homem melhor em trinta dias. Não tem lista de comportamentos a eliminar e nem promessa de cura no final.
É uma narrativa. Uma confissão. Um espelho progressivo, onde o leitor vai reconhecendo situações que viveu, que viu, que preferiu não nomear.
Também não é um ataque a outros homens. Não chego aqui como quem evoluiu e agora aponta o dedo. A postura do livro inteiro é outra: a de quem ainda está aprendendo. A de quem errou, reconhece e continua caminhando.
Isso importa. Porque livros sobre masculinidade escritos com julgamento afastam exatamente os homens que mais precisam ler. E esses são os leitores que esse livro quer alcançar.
A relação com o primeiro livro
Meu primeiro livro é Os Homens Não Conhecem o Amor. Ele mostra o que o machismo faz com a vida emocional dos homens. O personagem central, Pedro Pontes, ama de um jeito que machuca. Ele não percebe o que está fazendo enquanto faz.
Todo Mundo Conhece um Homem Perigoso vai à raiz. Mostra como essa formação acontece. Quem a sustenta. O que cada um de nós tem a ver com isso. Um livro mostra o efeito. O outro mostra o mecanismo.
Os dois se complementam. Cada um funciona sozinho. E cada um toca num ponto diferente da mesma ferida.
Por que esse debate importa agora
A machosfera não é um fenômeno distante. Está nos grupos de WhatsApp. Está nos feeds dos jovens. Está nas falas que a gente tolera e nos silêncios que a gente escolhe.
Enquanto os homens ficam quietos, esses movimentos crescem. Eles preenchem um vazio. Oferecem pertencimento. E o discurso piora progressivamente porque ninguém de dentro oferece alternativa.
Esse livro tenta ser essa alternativa. A narrativa de um homem comum, de Carapicuíba. Formado pelos mesmos padrões. Que nomeou o que fez. Que se reconheceu nas histórias que o machismo ensina e escolheu contar diferente.
O machismo é um problema dos homens. Somos nós que temos que resolver. Não é pauta das mulheres. É nossa.
Escrever esse livro foi o trabalho mais honesto que já fiz. Porque exigiu abrir mão da narrativa confortável de que eu era diferente. De que eu era o cara certo. De que o problema estava sempre nos outros homens, nunca em mim.
Estava em mim também. E esse reconhecimento é o que o livro pede de quem lê. Não como punição. Como ponto de partida.
Todo Mundo Conhece um Homem Perigoso está disponível agora em livrodopipo.com.br e na Amazon.
Quem quiser continuar essa conversa me encontra no Instagram @pipofe e no site livrodopipo.com.br. Esse debate sobre o que os homens precisam confrontar em si mesmos ainda está no começo. E quanto mais vozes entrarem nessa conversa, melhor.