Machismo sutil exemplos do tipo que quase ninguém consegue ver de dentro. Esse é o tema que estou examinando há meses enquanto escrevo meu novo livro.
O machismo sutil não chega com aviso. Não tem cara de monstro, não usa linguagem óbvia, não aparece nos casos que todo mundo consegue identificar com facilidade.
Ele está nas piadas que você ri porque todos estão rindo. No comentário que você deixa passar porque confrontar parece exagero. No silêncio que você escolhe quando uma mulher é interrompida numa reunião e ninguém diz nada. No ritual masculino que você repete porque foi assim que aprendeu a pertencer.
Por muito tempo, pratiquei machismo sutil sem reconhecê-lo como tal. Essa é, aliás, a característica central desse tipo de comportamento: ele é invisível para quem o pratica. Visível, no entanto, para quem o recebe.
Machismo sutil exemplos concretos do dia a dia
Machismo sutil, ao contrário do que o nome pode sugerir, não é menos prejudicial por ser menos explícito. Em alguns casos, é mais difícil de combater exatamente porque é mais difícil de nomear.
Alguns exemplos concretos do que isso significa no dia a dia.
A piada que você tolera. Alguém faz uma piada sexista no grupo. Você não acha engraçado, mas ri — ou fica em silêncio. Nenhuma das duas reações parece grande coisa. No entanto, o silêncio e o riso comunicam a mesma coisa: esse comportamento é aceitável aqui.
O comentário sobre a aparência. Uma colega entra na sala e alguém comenta como ela está. Ninguém questiona. A mulher sorri constrangida, e o assunto segue. Isso acontece com tanta frequência que parece normal. Porém, não é.
A explicação que ninguém pediu. Um homem explica, com detalhes, algo que a mulher na conversa já sabe. Ela não pediu explicação. Mesmo assim, ele explica. E ninguém na sala percebe que isso está acontecendo.
A dúvida sobre a competência. Uma mulher assume um cargo de liderança. A primeira reação de alguns homens ao redor não é reconhecimento, mas ceticismo velado. “Vamos ver como vai ser.” Esse ceticismo não aparece quando um homem assume o mesmo cargo.
Cada um desses exemplos, isolado, parece pequeno. Juntos, porém, compõem o ambiente em que o machismo mais grave se torna possível.
Como eu aprendi a normalizar esses comportamentos
Não aprendi machismo sutil em um único lugar. Aprendi aos poucos, em camadas, em contextos diferentes.
Aprendi no grupo de amigos onde as piadas sobre mulheres eram a moeda do pertencimento. Não rir ou questionar significava se isolar. Portanto, eu ria. Não porque achasse engraçado. Porque precisava pertencer.
Aprendi na família, onde certas divisões eram tão naturais que ninguém as questionava. Quem cozinha, quem limpa, quem decide, quem fica em silêncio. Essas divisões não foram ensinadas com palavras. Foram ensinadas com repetição, com o que era elogiado e o que era ignorado.
Aprendi também na escola, nos filmes, nas músicas. Em qualquer lugar onde a narrativa padrão colocava o homem como protagonista e a mulher como coadjuvante, objeto de desejo ou problema a ser resolvido.
Por isso, quando comecei a praticar esses comportamentos, não percebi que estava fazendo algo. Parecia apenas que estava sendo normal.
O momento em que comecei a ver
A mudança não aconteceu de uma vez. Foi gradual, desconfortável, e exigiu que eu prestasse atenção em coisas que havia aprendido a ignorar.
O primeiro passo foi parar de tratar meu desconforto como termômetro do que é ou não é problema. Muitas vezes, o machismo sutil é invisível para os homens porque eles não são os que recebem o impacto. Portanto, para vê-lo, é preciso ouvir ativamente quem está no lado que recebe.
O segundo passo foi parar de usar a intenção como justificativa. “Não quis dizer assim”, “é só uma piada”, “você está exagerando” são respostas que protegem quem praticou o comportamento, não quem foi afetado por ele. Além disso, essas respostas encerram a conversa antes que ela possa ser útil.
O terceiro passo, e o mais difícil, foi aceitar que reconhecer um comportamento machista em mim mesmo não me tornava uma pessoa má. Tornava-me uma pessoa que foi mal ensinada em alguns pontos e que podia fazer diferente a partir dali.
Por que o machismo sutil importa tanto
Existe uma tendência de reservar a palavra machismo para os casos extremos. O assédio declarado, a violência, o abuso. Porém, essa tendência tem um custo.
Quando o machismo sutil não tem nome, ele segue invisível. E o que não tem nome é muito mais difícil de questionar, de combater, de mudar.
Além disso, os casos extremos não aparecem do nada. Eles crescem num solo que foi preparado pelos comportamentos menores. Pela piada que ninguém questionou. Pelo silêncio que ninguém quebrou. Pelo homem que sempre passou um pouco do limite e a quem ninguém teve coragem de confrontar.
É sobre isso que estou escrevendo no meu novo livro, Todo Mundo Conhece um Homem Perigoso. Sobre como o machismo não começa nos casos extremos. Começa muito antes, nas coisas que aprendemos a normalizar.
Acompanhe o lançamento no Instagram em @pipofe. Por lá você vai encontrar os bastidores da escrita e as primeiras informações sobre o livro. Acesse também livrodopipo.com.br para acompanhar as novidades.
O que fazer com isso
Reconhecer machismo sutil nos próprios comportamentos não é confortável. Porém, é necessário.
O desconforto de se reconhecer num comportamento que você não quer ter é menor do que o custo de continuar tendo esse comportamento sem perceber. E o processo de mudar começa exatamente ali: no momento em que você para de ser o homem que ri da piada porque todo mundo está rindo, e começa a ser o homem que pergunta por que estamos rindo disso.
Essa pergunta parece pequena. No entanto, ela muda o ambiente ao redor de formas que vão além do que qualquer homem individualmente consegue medir.
Foi examinando esses momentos que comecei a escrever Todo Mundo Conhece um Homem Perigoso, meu novo livro. Nele, revisito os comportamentos que pratiquei, os que fingi não ver em outros homens e os que aprendi a normalizar antes de ter vocabulário para nomeá-los.
O machismo sutil é um dos fios centrais desse livro. Porque é por ele que o machismo mais grave começa. E porque é exatamente ele que mais resiste a ser visto.