Cumplicidade masculina: o que acontece quando o homem fica em silêncio

Vi uma mulher ser empurrada num campo de futebol. O homem que empurrou era conhecido de todos ali. Ninguém disse nada. Eu não disse nada.

Esse silêncio tem nome. Chama-se cumplicidade masculina. E durante muito tempo, eu não entendia que estava praticando algo. Parecia apenas que estava ficando de fora de uma situação que não era minha.

Não era. E é.

O que é cumplicidade masculina

Cumplicidade masculina é o silêncio do homem diante do comportamento de outro homem. É o olhar desviado. É o assunto que muda na hora certa. É o “não é bem assim” dito com voz baixa demais para mudar alguma coisa. É o “ele é complicado” usado como explicação que encerra a conversa.

Cumplicidade masculina não exige participação ativa. Em muitos casos, basta não fazer nada. E não fazer nada, em determinadas situações, é uma escolha ativa — mesmo quando não parece.

Por isso, quando o homem fica em silêncio diante de algo que deveria ser questionado, ele não está sendo neutro. Está comunicando que aquele comportamento é tolerável no ambiente em que ele está. Está contribuindo para que o comportamento continue.

Por que o homem fica em silêncio

Fiquei em silêncio muitas vezes. Cada uma delas tinha uma justificativa que parecia razoável no momento.

“Não é da minha conta.” Essa é a mais comum. O homem avalia que a situação não envolve ele diretamente, portanto não tem razão para intervir. No entanto, essa avaliação ignora que o comportamento que ele está vendo acontece num ambiente que ele compartilha. O campo de futebol era meu campo também.

“Não quero criar confusão.” Intervir tem um custo social. O homem que questiona o amigo, o colega, o conhecido, corre o risco de ser visto como chato, como pregador, como alguém que não sabe se divertir. Por isso, o silêncio parece a opção de menor custo. Para ele.

“Não vai adiantar nada.” O homem decide, antes de tentar, que sua intervenção não vai mudar nada. Essa decisão permite que ele não faça nada sem se sentir responsável pelo resultado. Além disso, ela frequentemente está errada.

“Não vi direito.” Quando a situação é ambígua, é tentador se convencer de que talvez não tenha sido o que pareceu. Talvez tenha sido uma brincadeira. Talvez o tom fosse diferente do que soou. Essa dúvida conveniente permite que o homem siga em frente sem agir.

Cada uma dessas justificativas protege o homem do desconforto de agir. No entanto, nenhuma delas muda o que aconteceu com a pessoa que estava do outro lado.

O que o silêncio comunica

O silêncio masculino diante de um comportamento ruim comunica várias coisas ao mesmo tempo.

Para o homem que praticou o comportamento, comunica que ele está seguro. Que pode continuar. Que o ambiente ao redor não vai questionar o que ele faz. Por isso, o silêncio coletivo dos homens em torno de outro homem problemático é parte do que torna esse homem possível.

Para a mulher que foi afetada, comunica que está sozinha. Que os homens ao redor escolheram o conforto de não agir em vez da responsabilidade de fazer algo. Esse é um peso específico que vai além da situação imediata.

Para o próprio homem que ficou em silêncio, comunica algo que ele demora para reconhecer: que a sua inação foi uma escolha. E que escolhas têm consequências, mesmo quando a escolha é não fazer nada.

A cena do campo de futebol

A mulher foi empurrada. O homem que empurrou saiu sorrindo. Os outros homens ao redor olharam para o chão, para o lado, para o celular. Eu também.

Depois, houve conversas paralelas. “Ele é assim mesmo.” “Ela também provoca.” “Não é da gente se meter.” Cada frase era uma forma de fechar o assunto sem ter que lidar com ele.

Essa cena é o tipo de momento que parece pequeno quando acontece e que pesa mais do que deveria quando você para para examinar. Porque o que aconteceu não foi apenas uma empurrada. Foi a confirmação, para todos ali, de que aquilo era tolerável. E eu contribuí para essa confirmação ficando quieto.

Estou escrevendo sobre esse e outros momentos no meu novo livro, Todo Mundo Conhece um Homem Perigoso. Sobre a cumplicidade masculina que mantém o comportamento de homens problemáticos funcionando. Sobre o custo do silêncio coletivo.

O que muda quando o homem decide não ficar em silêncio

Questionar um comportamento não precisa ser dramático. Não precisa virar confronto, não precisa ser uma declaração pública. Muitas vezes, basta uma frase dita no momento certo.

“Isso não foi legal.” “Para um pouco.” “Você foi longe demais.” Frases curtas, diretas, ditas por alguém que o homem problemático conhece e respeita têm um impacto diferente do silêncio. Não resolvem tudo. Porém, interrompem o sinal de que o ambiente é seguro para aquele comportamento continuar.

Além disso, quebrar o silêncio em situações menores torna mais fácil fazê-lo em situações maiores. O músculo se desenvolve com uso.

O homem que fingi não ver naquele campo de futebol continua sendo conhecido de muita gente. Provavelmente ninguém ainda disse nada a ele. Esse silêncio coletivo é o que o livro tenta examinar: não o comportamento do homem perigoso, mas o ambiente silencioso que o torna possível. E o papel de cada homem na construção ou na desconstrução desse ambiente.

Todo mundo conhece um homem assim. A questão é o que cada um faz com isso.

E essa é exatamente a pergunta com que meu novo livro termina. Todo Mundo Conhece um Homem Perigoso examina a cumplicidade masculina que sustenta comportamentos problemáticos. Examina os momentos em que o silêncio coletivo dos homens cria o ambiente em que o homem perigoso prospera.

Não é um livro sobre os casos mais graves. É sobre os que passam despercebidos porque ninguém ao redor teve coragem de dizer nada. Sobre os campos de futebol, os grupos de amigos, os ambientes de trabalho onde todos sabem e ninguém fala.

A cumplicidade masculina é um dos temas centrais do livro. Não por ser o mais dramático. Mas por ser o mais comum. O silêncio que cada homem escolhe, repetidamente, em situações que pedem reação, é a argamassa que sustenta o comportamento dos homens mais problemáticos.

Se você quer acompanhar o lançamento, me encontra no Instagram em @pipofe e em livrodopipo.com.br.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima