Como parar de ser machista: o que aprendi ao revisar os meus próprios comportamentos

Como parar de ser machista não tem uma resposta simples. Não existe uma lista de comportamentos a eliminar que, uma vez concluída, torna o homem pronto. O processo é mais longo, mais desconfortável e mais contínuo do que qualquer lista seria capaz de descrever.

Isso não é motivo para não começar. É motivo para entender o que esse começo realmente exige.

Escrevo sobre isso porque passei por ele. E porque parar de ser machista começa, antes de qualquer coisa, por aceitar que você era.

O primeiro obstáculo: achar que você não é

A maioria dos homens que praticam comportamentos machistas não se identifica como machista. Isso não é hipocrisia. É o resultado de uma definição muito restrita que a maioria das pessoas carrega sobre o que machismo significa.

Para muitos homens, machismo é o caso extremo. É o homem agressivo, o assediador explícito, o que usa linguagem abertamente ofensiva. Portanto, o homem que não faz nada disso conclui que não tem problema com machismo.

Essa conclusão ignora o espectro inteiro de comportamentos que existem antes dos casos extremos. O comentário que minimiza. A piada que você ri. O silêncio que você escolhe. A explicação que você dá sem ser pedida. Cada um desses comportamentos é parte do mesmo padrão, mesmo que esteja muito longe dos casos que o homem usa como referência de “machismo de verdade”.

Por isso, o primeiro passo é expandir a definição. Não para se culpar por tudo, mas para conseguir ver o que antes estava fora do campo de visão.

O papel do desconforto nesse processo

Revisar comportamentos próprios gera desconforto. Esse desconforto é sinal de que o processo está acontecendo, não motivo para parar.

O homem que começa a examinar suas próprias ações vai encontrar coisas que não vai gostar de encontrar. Vai lembrar de situações em que ficou em silêncio quando devia ter falado. De comentários que fez sem pensar no impacto. De formas como tratou mulheres que, vistas agora, não têm como ser justificadas.

A reação mais comum a esse desconforto é se defender. “Eu não quis dizer assim.” “Era outro tempo.” “Ela entendeu errado.” Essas defesas são compreensíveis. Porém, elas interrompem o processo antes que ele possa ser útil.

Deixar o desconforto existir sem resolvê-lo imediatamente com uma justificativa é o que permite que o processo avance. Não como punição. Como informação.

O que muda quando você começa a prestar atenção

Prestar atenção nos próprios comportamentos muda o que você é capaz de ver.

Quando começo a notar que interrompo mulheres em conversas, começo a ver isso acontecendo ao redor também. No momento em que percebo que explico coisas sem ser pedido, começo a identificar o padrão em outros homens. Quando reconheço que ficava em silêncio em situações que pediam reação, começo a entender o que esse silêncio comunicava.

Além disso, prestar atenção muda o que você é capaz de ouvir. A mulher que diz que aquela piada não foi engraçada para ela. O feedback que você sempre descartou como exagero. A descrição de uma experiência que você nunca teve e que, por isso, sempre foi difícil de imaginar como real.

Esse processo de ver e ouvir de forma diferente não acontece de uma vez. Acontece aos poucos, à medida que você se disponibiliza a ser incomodado pelo que antes não incomodava.

O menino que aprendi a ser

Em algum momento da infância, aprendi que pertencer ao grupo de meninos exigia certas coisas. Rir de certas piadas. Não demonstrar certas emoções. Ignorar certos desconfortos — o meu e o dos outros.

Esse aprendizado não foi explícito. Ninguém me sentou e explicou as regras. Ainda assim, as regras estavam lá, comunicadas por reação, por aprovação e desaprovação, por quem ficava dentro do grupo e quem ficava de fora.

Por isso, o menino que beija a Cris para fugir do bullying não está fazendo uma escolha livre. Está respondendo a uma pressão que aprendeu a sentir antes de ter palavras para descrevê-la. E o adolescente que aprende a ignorar o próprio desconforto para pertencer está desenvolvendo um hábito que vai carregar por décadas.

Entender de onde vieram esses padrões não é desculpa para mantê-los. É, no entanto, necessário para conseguir mudá-los de forma real. Porque o comportamento que foi aprendido num contexto pode ser reexaminado num contexto diferente.

É sobre esse processo de reexame que estou escrevendo no meu próximo livro, Todo Mundo Conhece um Homem Perigoso. Não é um manual. Não tem lista de regras. É o relato honesto de um homem que abriu os olhos para comportamentos que preferia não ter visto.

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Como parar de ser machista: o que muda no comportamento

Parar de ser machista não é um estado final. É uma prática contínua.

Na prática, parece não rir de uma piada que você sabe que não deveria rir. Ou dizer algo quando um homem ao redor passa do limite, mesmo que isso gere desconforto. Parece ouvir o feedback de mulheres sobre o seu comportamento sem se defender imediatamente. Parece revisar o que você explica, o que você interrompe, o que você deixa passar.

Além disso, parece aceitar que você vai errar no processo. Que haverá momentos em que o padrão antigo vai aparecer antes que você perceba. E que o objetivo não é não errar nunca, mas reconhecer quando erra e fazer diferente na próxima vez.

Não existe ponto de chegada nesse processo. Existe, contudo, uma diferença real entre o homem que nunca examinou seus comportamentos e o homem que começou. Essa diferença não é perfeição. É direção.

Há também algo que muda no ambiente ao redor quando um homem começa esse processo. Os outros homens ao redor percebem. Às vezes, isso abre espaço para conversas que nunca aconteceriam de outra forma. Para questionamentos que ficavam represados porque ninguém queria ser o primeiro a fazer.

A mudança individual não resolve o problema coletivo. Ela é, porém, parte necessária de qualquer mudança que seja real. E começa com a disposição de fazer uma pergunta desconfortável sobre si mesmo.

Como parar de ser machista é, portanto, uma pergunta que exige honestidade antes de qualquer técnica. Antes de saber o que fazer diferente, é preciso estar disposto a ver o que já foi feito. Isso é mais raro do que parece. Por isso, que vale tanto.

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