Nós, homens, temos medos. Acredite, eu sei do que estou falando. O que mais temos é medo. Infelizmente, somos criados para esconder isso tudo. A frase mais ouvida quando eu era criança: “engole esse choro”. “Tá chorando igual menininha.” E por aí vai.
Os medos que todo homem tem são reais. A pressão para sermos fortes, inquebráveis, cobra um preço. Alto demais.
Ao longo dos anos, a gente vai engolindo choro, acreditando que somos obrigados a ser uma fortaleza. Ao primeiro sinal de sensibilidade, a gente se fecha. Imagina a cabeça do cara que está morrendo de medo, sofrendo por amor, no limite da pressão. E mesmo assim não pode fraquejar. Não procuramos ajuda dos amigos, que também performam o cara forte. Não procuramos os familiares, que pouco se importam com o que o homem está sentindo. Nem da ajuda clínica, que deveria ser a primeira parada.
O resultado de tudo isso está na estatística da depressão masculina. No número de homens que se matam. Está no silêncio dentro dos relacionamentos. Está na violência que explode quando o acúmulo transborda.
Vou escrever sobre cinco desses medos. Os que a gente carrega, mas raramente coloca em voz alta.
1. O medo de admitir que tem medo
Esse é o clássico. O primeiro da lista. E também o que organiza todos os outros.
A gente pensa: se descobrirem que estou com medo, vão me achar fraco. Por isso travamos. Sofremos calados com vários medos ao mesmo tempo, incluindo o medo do medo em si. Uma armadilha dentro da outra.
Sentir medo é humano. Deveria ser normalizado. Acontece que o patriarcado, com toda a sua ironia, fez de nós, homens, as suas próprias vítimas. Construímos um sistema para dominar e acabamos presos dentro dele. Sem saída fácil.
Vi isso acontecer com amigos próximos. Homens carregando situações pesadas, trabalho afundando, casamento desmoronando, saúde comprometida, e a resposta era sempre a mesma: “tô bem”. Dois anos depois, o colapso. A internação. A separação. O que estava bem nunca esteve.
O medo de admitir o medo é o mais silencioso de todos. Também é o mais destruidor.
2. O medo do tamanho
Esse aterroriza. Faz a perna bambear só de pensar na hipótese.
Somos neuróticos com o tamanho do nosso pênis. Isso não é novidade. Piadas, comentários, comparações no vestiário. A gente cresce ouvindo que tamanho é documento. Que o cara com pau pequeno está em desvantagem. Que isso define alguma coisa sobre quem você é.
Resultado: anos de insegurança. Homens que evitam certos tipos de iluminação, certas posições, certas conversas. Homens que usam o humor como escudo para não ter que encarar a própria ansiedade sobre o assunto.
A indústria toda existe por causa desse medo. Produtos, cirurgias, conteúdo de internet. Tudo alimentando uma insegurança que começa cedo e nunca ninguém resolve de verdade.
O medo não é sobre centímetros. É sobre o que a gente acredita que o tamanho representa. E aí a conversa fica bem mais complicada.
3. O medo de amar
O medo de amar e ser desprezado é um dos medos que todo homem tem e pouquíssimos admitem.
Ser trocado por outra pessoa. Não ser correspondido. Expressar o que sente e receber o silêncio ou a rejeição de volta. Essas hipóteses assombram. Por isso, a gente ama pela metade. Ama com distância de segurança. Ama de um jeito que, se der errado, dá para dizer que nunca foi sério.
Escrevi sobre isso no meu livro Os Homens Não Conhecem o Amor. O personagem central, Pedro Pontes, ama de forma intensa e ao mesmo tempo aprende a esconder essa intensidade. Ele tem medo de se expor. Por isso nunca está completamente presente em nenhum relacionamento. E paga um preço caro por isso. Disponível em livrodopipo.com.br e na Amazon.
A pergunta que a gente nunca faz em voz alta é simples. Será que ela vai me amar do jeito que eu a amo? E se eu expressar o que sinto, como ela vai reagir?
A gente já sabe o motivo de travar nessa pergunta. Aprendemos que expor demais é perigo.
4. O medo de admitir que não consegue
Para nós, é torturante dizer que não é possível fazer algo. Não consigo resolver isso sozinho. Não sei como fazer essa tarefa. Preciso de ajuda.
Pedir ajuda, então, é quase impensável. O homem que pede ajuda pode ser visto como fraco. Prefere fingir que sabe. Melhor dar um jeito sem perguntar. Melhor se virar sozinho até as coisas desandarem completamente.
Esse medo aparece no trabalho, no casamento, nas finanças, na criação dos filhos. Aparece em todo lugar onde o homem sente que deveria ter a resposta e não tem. Aí ele finge. Às vezes por meses. Às vezes por anos.
O custo de fingir que consegue quando não consegue é alto. Profissional, relacional, emocional. A gente paga essa conta com juros.
Ainda assim, admitir o limite continua sendo um dos gestos mais difíceis que um homem pode fazer. Porque admitir o limite exige aceitar que a fortaleza tem rachadura. E isso ninguém nos ensinou a fazer.
5. O medo de ser traído
Aqui chegamos ao medo geral. Um amigo, um sócio, um colega de trabalho ou a pessoa com quem você está num relacionamento. Não importa quem. A gente tem pavor de ser enganado.
Ser traído seria um dos maiores sinais de fraqueza, pelo menos é assim que a masculinidade nos ensinou a interpretar. Se me enganaram, é porque eu fui ingênuo. Se fui ingênuo, sou fraco. Se sou fraco, falhei como homem.
Por isso, a desconfiança vira comportamento padrão. A gente monitora, questiona, controla. Às vezes sem perceber. Às vezes percebendo e não conseguindo parar.
Em relacionamentos amorosos, esse medo vira ciúme. E o ciúme, a gente sabe, tem um passo curto até virar controle. Escrevi sobre como o controle se disfarça de cuidado no livro. Sobre como o homem que tem medo de ser traído acaba sufocando quem ama.
O patriarcado que criou os medos que todo homem tem
Aos poucos fui percebendo que era vítima de algo que a minha própria espécie criou e reproduz há gerações. Herança do patriarcado construído para tornar a mulher inferior e limitar as possibilidades entre homens e mulheres.
O que aconteceu foi o seguinte. A pressão social para ser homem destroça nossa existência. As maiores vítimas são as mulheres, sempre. E, ao mesmo tempo, o mesmo sistema acaba com os homens que não resistem à tamanha pressão.
A depressão masculina é silenciosa. O suicídio masculino é estatística. A violência vem de dentro para fora quando o acúmulo não tem saída.
Se você chegou até aqui, ótimo. Saiba que conversar é possível. O inbox está aberto. Qualquer rede social. Sou todo ouvidos.
Ninguém precisa aguentar tudo sozinho. Busque ajuda, converse com alguém, procure terapia. Tudo que nos foi ensinado pode ser ressignificado. Os medos que todo homem tem existem, mesmo quando a gente faz de tudo para não enxergá-los. Reconhecê-los é o primeiro gesto honesto que a gente pode fazer.
Me acompanhe no Instagram em @pipofe. Escrevo sobre isso com frequência por lá.