O Silêncio Masculino na Copa do Mundo: O Caso Ryan Mendes

O capitão da seleção de Cabo Verde, Ryan Mendes, é acusado de estupro. A vítima é uma brasileira. Ela trabalhava como tradutora durante a passagem do time pela Nova Zelândia, em março deste ano. As autoridades neozelandesas confirmaram a acusação e abriram investigação. A FIFA sabe. A delegação de Cabo Verde sabe. E Ryan Mendes seguiu jogando.

Esse é o caso. Limpo, direto, sem filtro.

O que me move a escrever sobre isso é o que aconteceu depois. Na cobertura. Nos estúdios. Nos canais de TV aberta e streaming. Entre os homens que têm microfone, câmera e plataforma para falar. O que aconteceu foi silêncio. Um silêncio calculado, conveniente e revelador.

Sou jornalista. Acompanho os jogos da Copa do Mundo 2026 por várias fontes. É um hábito de trabalho. E o que notei ao longo dos dias foi que a ausência de cobertura sobre o caso não foi acidente. Foi escolha.

A cobertura que não veio

Na Cazé TV, os profissionais estavam mais preocupados em entregar camisa autografada e presentes para jogadores do que fazer jornalismo. Vi um comentário breve sobre o tema, cauteloso, de passagem, do Rizeck. Só. Um comentário. Passagem.

Quem cobriu o caso com seriedade foram Milly Lacombe e Alicia Klein, no canal do YouTube e no UOL. Duas mulheres. Falaram com clareza sobre o que estava acontecendo. Colocaram o caso no centro, onde ele deveria estar.

Nas demais emissoras, nada. Entradas ao vivo sobre a Seleção Brasileira. Reportagens sobre a cultura local de países que estão na Copa. Curiosidades, receitas, festas. E sobre o crime que uma mulher denunciou formalmente às autoridades internacionais, silêncio.

Esse padrão tem nome. Chama-se cumplicidade. Mesmo que os envolvidos nunca usem essa palavra. Mesmo que cada um deles acredite que estava apenas sendo prudente, profissional, equilibrado.

A vítima que pediu o mínimo

A mulher que fez a denúncia procurou a FIFA. Procurou a Federação da Nova Zelândia. Procurou a Federação de Cabo Verde. O pedido dela era claro. Queria que o jogador fosse impedido de disputar a Copa do Mundo enquanto a investigação corresse.

Era o mínimo. Em qualquer instituição que se leve a sério, suspender preventivamente um acusado enquanto o processo corre é procedimento básico. As respostas que ela recebeu foram de que cada federação não tinha ligação com o caso. Que não era responsabilidade deles. Que estava fora da alçada.

A FIFA, que já se posicionou sobre o Irã e outros temas políticos em edições anteriores, ficou quieta. O jogador entrou em campo.

Fico indignado quando penso no que essa mulher enfrentou. Fez tudo certo. Denunciou formalmente. Procurou as instâncias competentes. Pediu o mínimo. E foi recebida por uma parede de desvios de responsabilidade de todas as direções.

Não sei se ela está sendo amparada. Não sei se tem suporte jurídico, psicológico, estrutural. O que sei é que o sistema que devia acolhê-la escolheu se proteger.

O silêncio masculino conveniente

Esse é o padrão que venho observando há anos. E que me levou a escrever Todo Mundo Conhece um Homem Perigoso, meu novo livro, que será lançado no dia 19/0//2026 na Livraria Martins Fontes da Vila Buarque, em SP.

O silêncio masculino conveniente funciona assim. Nenhum homem fala até que alguém com mais audiência, mais status ou mais segurança política decida falar primeiro. A gente espera. Observa. Segura o microfone em vez de usar. E enquanto espera, o caso vai esfriando. A atenção vai se deslocando. A Copa continua. O jogador continua. A mulher fica sozinha com o que viveu.

Isso é cumplicidade. Mesmo quando ninguém participou diretamente do crime. Mesmo quando cada um desses homens acredita que está apenas sendo prudente.

No livro, reflito sobre como atos pequenos alimentam estruturas maiores. O silêncio diante do que é sério é um desses atos. Ele torna possíveis os crimes que vêm depois. O comentário que ninguém questiona na roda de amigos. A piada que todo mundo ri. O episódio que “não é da conta de ninguém”. Cada um desses momentos é um tijolo na parede que protege homens que abusam de mulheres.

A cobertura da Copa do Mundo 2026 está construindo tijolos.

Homem protegendo homem

Tenho chamado isso de silêncio masculino conveniente. Por um motivo simples. Quando o acusado é homem, os outros homens ao redor encontram motivos para não se envolver. Sempre encontram.

Não há prova suficiente, dizem. Deixa a justiça resolver. Não é hora. A Copa está rolando. A vítima deve ter algum interesse. Cada uma dessas frases é uma saída. Um jeito de não ter que tomar partido. Um jeito de permanecer confortável enquanto uma mulher permanece sem resposta.

Os programas de esporte que escolheram não cobrir esse caso têm apresentadores, comentaristas, diretores, editores. A maioria homens. Todos com a capacidade de colocar o tema em pauta. Todos com a possibilidade de dizer: isso importa, vamos falar.

Escolheram o contrário.

Estão todos ocupados anunciando casas de apostas, gerando engajamento com polêmicas menores, disputando audiência. E o caso da tradutora brasileira fica ao fundo. Como um ruído que incomoda e que ninguém quer tornar alto.

O que a gente pode fazer

Não escrevo isso para apontar o dedo de longe. Escrevo porque sou homem, sou jornalista, e sei o que custa entrar nessa conversa. Sei o que custa quando ninguém ao redor está entrando e você decide falar assim mesmo.

Custa conforto. Custa audiência, às vezes. Custa a aprovação do grupo que prefere que o assunto não exista.

Ainda assim, o caso Ryan Mendes precisa ser repercutido. Precisa ser nomeado. A pressão pública sobre a FIFA e as federações envolvidas precisa existir. A mulher que denunciou precisa saber que há pessoas que acreditam que o pedido dela era justo.

Esse jogador deveria ter sido afastado preventivamente. A FIFA deveria ter agido. Qualquer instituição que finge levar a proteção das mulheres a sério deveria ter agido.

E os homens com microfone deveriam ter falado.

O silêncio masculino em casos como esse é parte do problema. Sempre foi. Reconhecer isso é o começo de fazer diferente.

Acompanhe o lançamento do meu livro sobre esse tema em @pipofe e em livrodopipo.com.br.

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