Romário, machismo e Copa do Mundo, amigo!

Como diria o consagrado narrador, Galvão Bueno, é COPA DO MUNDO, amigo! Sim, ele fala para O amigo. Para o homem, para o masculino. E o futebol infelizmente segue sendo o mundo dominado pelo machismo. Nós, seguimos reproduzindo, sem pudor, o discurso de dominação masculina, no esporte mais popular do mundo.

Desta vez, a fala veio do Senador e ex-jogador de futebol, Romário, de 60 anos. Durante o jogo entre Brasil e Marrocos, no último sábado, pela primeira rodada da Copa do Mundo FIFA 2026, a repórter Fernanda Gentil, da Cazé TV, perguntou ao baixinho se, diante da expectativa criada em torno da equipe, aquele empate de 1 a 1 não poderia ser considerado uma derrota disfarçada.

Romário respondeu com o típico tom de superioridade masculina que nos faz acreditar que somos especialistas em futebol e na certeza que temos, infelizmente, de que podemos desqualificar uma mulher que fala sobre o jogo. “Fernanda, é o seguinte: quem não conhece muito de futebol vai ter esse pensamento que você tem”, disparou. 

Você pode conferir o trecho no link: https://www.instagram.com/reel/DZkxdD0RiS4/ ou em outros sites.

Futebol é coisa de homem?

Não! Eu respondo: futebol é coisa para qualquer pessoa. E o que me assusta é a enorme dificuldade que nós homens temos de aceitar o espaço da mulher no futebol. Como somos incapazes de nos policiar com nossas falas e pensamentos machistas, além de contribuir para a disseminação, infeliz, do discurso de dominação masculina.

Ah, mas foi sem querer! Já percebeu como somos nós, “os meninos” que contemporizamos tais atos? É sempre da nossa boca que sai a diminuição da gravidade do fato. E de tantos outros.

No meu novo livro, Todo Mundo Conhece um Homem Perigoso, reflito exatamente sobre isso. O nosso silêncio diante do machismo e da misoginia. Um silêncio que parece inofensivo, mas se torna extremamente perigoso. E você sabe o porquê? É que quando a gente se cala, o discurso ganha força. Grupos redpills espalham ódio contra mulher pelo mundo e ganham cada vez mais espaço. Um dos motivos: nossa omissão.

Somos parte do problema, afinal, contribuímos para a reprodução do machismo seja na educação de um menino ou menina, nas nossas falas diárias, nas piadas, nos privilégios. Sim, nos pequenos atos do dia a dia nos tornamos homens omissos diante do perigoso crescimento do movimento da “Machosfera”. Se quiser entender um pouco mais sobre esse movimento, eu escrevi sobre a série da Netflix, Por Dentro da Machosfera e do perigoso crescimento do discurso desses homens perigoso.  

E a Copa do Mundo 2026?

Essa é a grande contradição. Os homens, aqueles que se gabam de que o futebol é coisa de homem estão com medo. Sim! Tentei sem jogador de futebol profissional entre sete e dezessete anos. Eu sei como é machista o “meio do futebol”, assim como todos os outros.

Eles não podem admitir. Mas, estão morrendo de medo. Estou falando dos jogadores da seleção brasileira de futebol. Comandados pelo técnico italiano, Carlo Ancelotti. Notável em meio ao jogo as pernas tremendo e não realizando o movimento correto. O chute errado, olhos esbugalhados e assustados. Medo.

Mas o homem não pode expressar seus sentimentos. Se ele o fizer, é fraco! Se admitir que está com medo, que sente a pressão de representar um país carente de conquistas que despeja nas costas de onze homens dentro do campo toda a responsabilidade de tornar as nossas vidas felizes.

Críticas pessoais, pressão de milhares de torcedores dentro do estádio lotado e meninos e homens que reproduzem o machismo e aprenderam que devem suportar tudo. Eles não estão suportando e ninguém está nem aí! Homem que é homem enfrenta tudo, diria o outro. E assim seguimos, no nosso mundinho machista. Ofendendo mulheres, ao vivo, enquanto outros homens não podem sucumbir e admitir o medo.

No final, não é o machismo que faz a seleção brasileira perder. Longe disso! O machismo faz nossa sociedade perder, e esse jogo está 7 a 1 contra nós desde a idade da pedra.

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