A gente vive escondendo o que sente. Nós, homens, somos ensinados a esconder tudo e a seguir em frente. Nada nos abala. Uma responsabilidade covarde de ser muito forte. Intransponível. Aquele que engole o choro e suporta tudo.
Nós e nossa frágil masculinidade, pautada pelo discurso de dominação masculina vomitado desde a Idade da Pedra. E assim seguimos: depressivos, frustrados, escondendo nossos medos, surtando, explodindo em violência contra nossas parceiras, cada dia mais letal.
Esse aprendizado começa cedo. O menino que chora e ouve que choro é coisa de menina. O adolescente que demonstra medo e é chamado de fraco pelo grupo. O homem adulto que sente o nó na garganta e aprende a engolir, engolir, engolir. Ano após ano, a gente vai construindo uma parede interna que parece resistência, mas é acúmulo. E acúmulo, em algum ponto, transborda. Às vezes em depressão. Às vezes em raiva. Às vezes em violência.
Mas, como diria o narrador, Galvão Bueno: é Copa do Mundo, amigooooo!
O estádio como exceção
Num piscar de olhos, aqueles homens e meninos vestidos de amarelo entram em campo. Perfilados, cantam o hino nacional. A gente chora. Lágrimas de emoção naquele momento que facilmente se tornam lágrimas de frustração pela derrota do nosso time.
O choro pode ser, ao vivo, por um gol espetacular. No estádio, o grito de gol vem acompanhado de um efusivo abraço no homem ao lado. Veja, só. Nem sequer questionamos quem é o cara. Sem nenhuma vergonha, despidos de preconceitos, abraçamos o cara e até o beijamos em comemoração ao momento sublime do futebol.
Se o nosso time vence, ficamos mais carinhosos uns com os outros. Gentilezas, risos, afeto e carinho nunca antes vistos neste país. Mas é Copa do Mundo, meu amigo.
Tem algo no estádio que desliga o filtro. A arquibancada lotada, o barulho que vibra no peito, o uniforme que transforma estranhos em família. Por um momento, os homens ao redor deixam de ser ameaça. Deixam de ser julgamento. E então, a gente sente. A gente abraça. A gente chora com o outro sem precisar se explicar.
Esse momento acontece. E ele é real. Isso é o que me interessa.
O futebol e a masculinidade escondida
Parece que a gente deixa escondido o que realmente somos. Só liberamos tudo quando chega a hora do jogo. Seja o time do coração ou a seleção brasileira, a gente se emociona. Nos entregamos como nunca. Amamos, compartilhamos e nos tornamos humanos. Como deveria ser, sempre.
A nós foi instituído o personagem do machão. Aquele que é forte, frio e violento. Esse, que aparece diariamente matando mulheres, ameaçando pessoas no trânsito, fazendo piadas e disseminando ódio, só desaparece durante o jogo. Será que é só isso, mesmo?
Porque quando o árbitro apita o fim da partida, a figura volta. A parede se reconstrói. O abraço que era natural vira algo estranho. O choro que era permitido volta a ser vergonhoso. E os mesmos homens que se aqueciam nas arquibancadas caminham de volta para a vida que aprenderam a ter.
Espere uma árbitra apitar um jogo e cometer um erro. Infelizmente, não vai demorar para os ataques começarem. O mesmo homem que chorou junto com o desconhecido vai digitar ódio com os dois polegares. Isso revela alguma coisa sobre onde está a emoção que estava escondida. Ela estava lá o tempo todo.
O que fica depois do apito final
A derrota tem um peso específico. Se a eliminação vier, tudo volta com força. A violência, a valentia, a brutalidade. O machismo, que ficou em suspensão durante os noventa minutos, reaparece. E reaparece com juros.
Já vi isso acontecer. O homem que chorou de felicidade na segunda-feira xingando a esposa na sexta. O grupo de amigos que se abraçou no gol. Gritando dentro de casa de madrugada, com os filhos acordados com medo.
A emoção que o futebol libera é real. A vida que existe fora dele também é real. O problema é que essas duas versões do mesmo homem raramente se encontram.
E o que me pergunto é o seguinte. O homem é capaz de sentir, de chorar, de abraçar e de amar em público, dentro de um estádio, sem vergonha. O que exatamente desaparece quando ele cruza o portão de saída?
Homem que não chora, salvo na Copa do Mundo
Esse fenômeno me acompanha desde que comecei a pensar sobre o que significa ser homem neste país. A Copa do Mundo funciona como uma espécie de licença temporária para ser humano. Uma janela onde a emoção é tolerada. Onde o choro é coletivo e por isso deixa de ser fraqueza.
A questão é que a licença expira. E quando expira, a gente volta para o script. O script que diz que homem não chora. Que homem aguenta. Que homem resolve sozinho e não pede ajuda. Esse script está na raiz de muita coisa que a gente prefere não olhar. Está na raiz da depressão masculina que a gente não nomeia. Está na raiz da violência que a gente não para de reproduzir.
Escrevo sobre isso no meu livro Os Homens Não Conhecem o Amor, disponível em livrodopipo.com.br e na Amazon. Escrevo sobre homens que sentem muito e aprenderam a esconder tudo. Sobre o que esse escondimento custa. Para eles e para quem está ao redor.
A Copa do Mundo deixa escapar o que está guardado. O estádio é grande demais para segurar tudo dentro.
O que a gente poderia ser
E a minha dúvida é essa. O que impede que nós, homens, sejamos os mesmos que se permitem sentir, abraçar e amar durante a Copa do Mundo?
O homem que chora no gol existe. Eu vi ele. Você também viu. Talvez você seja ele.
Esse homem que abraça o desconhecido, que canta junto, que diz ao filho que está emocionado sem sentir vergonha. Esse homem está dentro da gente o tempo todo. O futebol não cria essa versão. Ele só dá permissão para ela aparecer.
A pergunta que fica é quem deu ao futebol esse poder. E por que a gente ainda espera a Copa do Mundo para ser inteiro.
Acompanhe meu Instagram em @pipofe. Por lá escrevo sobre masculinidade, sobre sentimento e sobre tudo que os homens costumam deixar escondido.