Exatamente isso que você leu. A cadeia de produção de livros no Brasil é extremamente cara e, infelizmente, nós autores raramente lucramos. O autor independente no Brasil sofre, aliás, todos os autores passam por algo que eu considero muito lamentável: royalties de livros no Brasil. Que vou explicar nesse texto.
O mercado do livro se assemelha ao da música. Para a geração que não conheceu o CD (Compact Disc), ele era o “livro” dos músicos. As gravadoras ficavam com a maior parte do valor das vendas de CDs de bandas e cantores pelo país. Com o escritor de livros no Brasil é o mesmo, ou até pior.
Vamos entender alguns pontos:
Tipos de Editoras no Brasil
Como funcionam os royalties para escritor/escritora
Como as livrarias cobram para vender seu livro
Publicação independente, como fazer
Vendas de livros no formato POD (sob demanda)
Por que o autor é o único que não lucra com a produção de um livro?
Então, vamos nessa!
Tipos de Editoras de livros no Brasil
Editoras brasileiras se dividem em algumas modalidades e uma delas pode ser interessante para você publicar seu livro.
Editora Tradicional – são editoras que não cobram nenhum valor para publicar seu livro. Geralmente são as maiores do país, como Record, Companhia das Letras, Letramento etc. Nesse formato de publicação a grande dificuldade é a de conseguir ter um original avaliado e publicado. Editoras tradicionais, ao meu ver, têm medo de arriscar. Raramente colocam no mercado novos escritores(as) sem que se tenha uma plataforma. Ou seja, se você é escritor e não tem ao menos 20 mil seguidores em uma rede social, um canal de vídeos com ao menos esse mesmo número de inscritos, não é influenciador, cantor, ator ou uma pessoa publicamente reconhecida, já sabe. A editora tradicional raramente vai abrir as portas para você.
Editora Prestadora de Serviço – é a maioria das editoras que temos no mercado. Muitas delas estão com canais para envio de originais expostos em seus sites, fazem campanhas para avisar que estão aceitando originais e publicam de tudo. Nesta modalidade, todos os serviços são cobrados e, geralmente, o autor é obrigado a adquirir uma quantidade específica da sua própria obra. Algumas editoras prestadoras de serviço incluem recentemente a possibilidade de você usar o “SELO” delas. O que na prática é: a editora coloca a marca dela no seu livro, firma um contrato em que ela fica com os direitos da obra e leva uma porcentagem das vendas.
Os serviços para publicação do livro são:
Leitura Crítica – Um profissional especializado em crítica literária analisa seu original e retorna um relatório com os pontos fortes e os pontos a melhorar no seu texto.
Revisão/Edição de texto – profissional que faz a revisão completa do texto e, em muitos casos, toda a preparação/edição para o texto final que será publicado.
Design de capa: cria a capa do seu livro conforme briefing e análise do conteúdo do seu original.
Diagramação do livro – momento em que é organizado o layout do texto dentro do livro conforme os padrões do mercado de livro brasileiro. Tamanho da fonte, qual a fonte, quantas páginas, disposição do texto, separação dos capítulos. Tudo isso é definido aqui.
Ficha Catalográfica e ISBN – momento de pedir a documentação do seu livro. A ficha serve para catalogação do seu livro em bibliotecas e deve ser feita por um profissional. O ISBN é o código de barras do seu livro. É o código universal e você encontra ele na contracapa e facilita que seu produto seja encontrado na internet.
Estes serviços devem ser solicitados pela Câmara Brasileira do Livro.
Impressão do livro – feita por gráficas especializadas, geralmente com valores que diminuem conforme a quantidade de exemplares aumenta.
Na editora prestadora de serviço você paga por tudo e, geralmente, fica com 100% do valor das vendas.
Na editora tradicional você não paga nada, mas fica com, no máximo, 10% de royalties.
Como funcionam os royalties de livros no Brasil
Geralmente, o autor que publica pela editora tradicional fica com até 10%. Em casos de escritores já com carreira consolidada, os valores conseguidos podem ser maiores. Os valores que o escritor recebe são descontados de todo o valor do produto. Não é o valor de capa (preço de venda).
Vou completar o exemplo com os números reais da cadeia:
Se o valor do livro nas livrarias é de R$60:
50% fica com a livraria = R$30
Do que sobra, o distribuidor leva em torno de 10 a 15% = R$4,50
A editora recebe aproximadamente R$25,50
O autor recebe 10% sobre esse valor líquido = R$2,55 por livro vendido
Ou seja, num livro de R$60, o autor embolsa menos de R$3.
Para chegar a R$1.000 de royalties, esse livro precisa vender aproximadamente 392 cópias. Para R$5.000, são quase 2.000 cópias vendidas.
E ainda tem um detalhe que quase ninguém explica: a editora geralmente paga os royalties de forma semestral ou anual, depois de descontar os exemplares devolvidos pelas livrarias. Livro devolvido não vendeu. E no Brasil, a devolução é parte do modelo.
O artista que criou a obra fica com a menor fatia do seu próprio produto. Será que esse é o ideal?
Como as livrarias cobram para vender seu livro
Aqui, vou falar sobre a minha experiência ao tentar colocar meu primeiro livro, Os Homens Não Conhecem o Amor, para vender em livrarias.
Primeiro ponto: eles não compram o seu livro e revendem assumindo os riscos. O livro é vendido nas livrarias no formato de consignação. Ou seja, você emite uma nota fiscal de consignação já com o valor de desconto.
A maioria das livrarias que tentei, sejam as pequenas de rua, as médias ou as grandes, todas cobraram 50% do valor de capa para revender meu livro. As grandes, a Livraria Leitura e outras, seguem o mesmo caminho.
A Livraria Martins Fontes – SP foi a que me ofereceu o melhor valor, mas para eu realizar o lançamento do meu segundo livro, Todo Mundo Conhece Um Homem Perigoso, com eles. O valor é de 30% do valor de capa.
Após as vendas, as livrarias, descontando o valor acordado, efetuam pagamento entre 60 e 90 dias. Você vende em janeiro e só recebe em março/abril. Para as vendas online, em sites como a Amazon, por exemplo, o valor descontado é da taxa de marketplace, que pode chegar a 20% do valor de capa + frete. (Os valores variam conforme a política de cada marketplace/site).
A dificuldade que encontrei para exibir meu livro nas livrarias como autor independente foi tanta, que eu desisti. Mesmo as pequenas livrarias de rua. Aquelas, charmosas, que vivem com discurso de “apoiem as livrarias pequenas”, cobram 50% do valor do livro. Uma conta que não fecha e prejudica demais o trabalho de autores independentes e dos publicados por editoras tradicionais, também.
Publicação independente, como fazer
A publicação independente é aquela em que o autor(a) é responsável por todos os processos e arca com todos os custos do seu livro. Autor independente ou editora independente. Nessa modalidade não existe divisão de lucros com terceiros, ficando com 100% do valor das vendas. Entretanto, cuidando de tudo, muitas vezes, sozinho.
Este formato de publicação permite que você tenha o controle de exatamente tudo. É preciso encontrar os fornecedores para leitura crítica, revisão/preparação, design de capa, diagramação e todos os outros que sentir necessário.
ATENÇÃO: existem muitas pessoas “vendendo” a ideia de que você pode publicar seu livro sem gastar nada. Acredito que seja um gatilho de vendas, no mínimo, covarde. Você terá de pagar ao menos pela ficha catalográfica e o ISBN para que o livro esteja devidamente registrado.
Além disso, fazer a própria capa, mesmo que usando inteligência artificial, pode deixar o seu produto final com aspecto amador e impactar diretamente nas vendas. Tenha em mente qual é o seu objetivo antes de partir para o curso de como publicar um livro do zero e sem gastar nada. CUIDADO!
Após o livro pronto, você poderá optar por plataformas de autopublicação. UICLAP e Clube de Autores são as mais famosas. Nessas plataformas você disponibiliza o miolo do livro em PDF e a capa, também em PDF, escolhe o preço que quer vender baseado em quanto receberá de royalties e pronto. O seu livro fica exposto nos sites para qualquer pessoa comprar sob demanda. Ou seja, livro impresso somente após gerar a venda. Toda a logística do livro é feita por eles.
Vendas de livros no formato POD (sob demanda)
A venda de livros no formato POD (Print On Demand) ou impressão sob demanda cresceu muito no Brasil, impulsionada pelo mercado de autopublicação. Quanto mais difícil é publicar por uma editora tradicional, mais os autores e autoras buscam a publicação independente. Essa é uma das melhores formas de aumentar a distribuição do seu livro em diversos marketplaces sem precisar imprimir centenas de exemplares e gastar com isso.
Na prática, é como mencionei anteriormente sobre a UICLAP e Clube de Autores, porém, você pode encontrar outras empresas que são gráficas e cuidam de toda a logística e venda do seu livro, inclusive nos sites como Amazon, Americanas etc.
As mais famosas são UMLivro e Book2. A UMLivro é a que tem o maior alcance e onde meu livro, Os Homens Não Conhecem o Amor, foi disponibilizado pela LC Books, selo editorial que usei para publicar. Para conseguir cadastro com eles, além de paciência com o atendimento moroso, será necessário CNPJ de editora. Eles irão cobrar 30% sobre o valor de capa + a taxa do marketplace em que o livro estiver disponível + uma taxa de utilização da plataforma, além do custo de impressão do exemplar. Ao meu ver, cobranças extremamente sufocantes para a margem de lucro de um autor.
O serviço de impressão do livro e a entrega são de qualidade. Os relatórios de royalties, vendas, também são completos. Faça sua pesquisa junto à empresa, pois valores e taxas podem sofrer alteração no momento em que você lê este texto.
A Book2 faz o mesmo serviço, mas, segundo o atendente, não cobra as taxas para uso de plataforma e nem comissão de venda. O que é cobrado é a impressão do exemplar + a comissão do marketplace, que gira em torno de 20%.
Outras formas de vender seu livro, de forma independente, é criando seu próprio site ou em parceria com alguma empresa que seja interessante para o nicho do seu livro.
Por que o autor é o único que não lucra com a produção de um livro no Brasil?
Infelizmente essa foi a minha constatação após publicar meu primeiro livro e realizar todos os processos para publicação do meu segundo livro, Todo Mundo Conhece um Homem Perigoso, que será lançado em uma tarde de autógrafos no dia 19/09/2026, na Livraria Martins Fontes – Consolação, às 16h. Rua Dr. Vila Nova,309 – Vila Buarque – São Paulo / SP
Você escreve seu livro após ter a ideia, pesquisar sobre o tema, reescreve o texto algumas vezes e logo se depara com a necessidade de contratar os serviços que fazem parte da cadeia de produção de um livro no Brasil. Repito: não caia no erro de acreditar que fazer tudo sozinho será a solução. Um livro sem uma leitura crítica profissional, por exemplo, pode culminar em um material fraco e escrito para o público errado.
Cada profissional envolvido terá um preço diferente. Eu acredito que devemos sim valorizar e contratar os melhores que pudermos. Só que foi aí que eu me deparei com essa reflexão:
A empresa ou profissional que faz o design de capa e a diagramação não tem nenhum risco sobre o produto final. Se o livro não vender bem, eles já lucraram. O mesmo pensamento segue para todos os fornecedores. Revisores e revisoras, diagramadores, assessoria de imprensa, influenciadores que divulgam livros (Bookers) etc.
Todo mundo leva uma fatia do bolo. Na publicação tradicional funciona do mesmo jeito. O último a receber é quem de fato escreveu, teve a ideia e produziu a obra. Mas, infelizmente, é quem fica com a menor fatia do bolo. Claro que todos investem tempo, conhecimento e muita experiência no que faz e esse pensamento não é contra nenhum dos profissionais envolvidos nessa cadeia produtiva do livro.
O que realmente me pega é esse formato que faz com que o grande criador da obra seja o que recebe menos pelo seu trabalho. Você vai encontrar grandes autores independentes que venderam mais de mil exemplares diretamente nas ruas, sem editora, sem investimentos altos em divulgação, somente indo para as ruas, mas sabemos que também é um desafio que não deveria ser do escritor. Seria interessante pensarmos em mudar isso. Como? Quem? O que fazer? São pontos que devemos pensar e, aos autores que chegam lá, conquistaram grande espaço e vendem muitos livros, para só então ter algum lucro… falem sobre isso. Aproveitem o sucesso para lutar pela classe.